body Tudo Passa

"Amou daquela vez como se fosse a última. Beijou sua mulher como se fosse a última e cada filho seu como se fosse o único. E atravessou a rua com seu passo tímido. Subiu a construção como se fosse máquina, ergueu no patamar quatro paredes sólidas, tijolo com tijolo num desenho mágico, seus olhos embotados de cimento e lágrima. Sentou pra descansar como se fosse sábado. Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe. Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago. Dançou e gargalhou como se ouvisse música e tropeçou no céu como se fosse um bêbado e flutuou no ar como se fosse um pássaro. E se acabou no chão feito um pacote flácido. Agonizou no meio do passeio público. Morreu na contramão atrapalhando o tráfego."
Chico Buarque.   (via versificar)
"Ela escolheu a blusa mais simples que poderia usar. O short mais velho e confortável. Prendeu o cabelo em uma trança improvisada e saiu. Pensou em usar algo mais novo, mais bonito, que chamasse mais atenção. Mas, lembrou que se ele vai amá-la um dia, será assim: de cara lavada, roupa simples, vestida de si mesma. Estava com medo da reprovação dele, no fundo. 
E então ele surgiu, rindo, vindo abraçá-la com força. 
- Meu deus, seja menos cheirosa, menos bonita. 
Ela surpreendeu-se:
- Por que? 
- Vou acabar me apaixonando ainda mais por você, se vier sempre dessa forma, linda, me ver. 
Ela ficou em silêncio. Não havia resposta, agradecimento. Nada. Era ele. Seria ele. Tinha que ser ele."
– Alice Rodrigues  (via rodrigsuniverse)
"Mas ela diz que me ama. Ela chega de fininho como quem não quer nada, pega minha mão, toca no meu cabelo e depois a ouço dizer coisas como - “Ah, não vai embora, tá cedo”. Mas eu não dou ouvido, quer dizer, bem que tento. A verdade é que ela não sabe falar coisas bonitas, não sabe como fazer eu me sentir realmente desejado e quando tenta parecer uma garota normal, acaba parecendo um daqueles pepinos estragados que não mudam de cor, sabe? Eles são verdes de qualquer jeito. Certo dia ela tentou me matar, digo, falar que me ama, pode isso? Nos conhecemos há anos, nos pegávamos sempre que tínhamos chance e essa vadia resolveu estragar tudo falando do seu amor por mim - fiquei triste é claro – mas dei um sorriso forçado e fingi que não havia escutado. O silêncio foi nossa conversa pelos próximos 5 minutos, tudo bem, ela sempre faz isso, pensei. Ela sempre gostou de me fazer chegar ao céu e em seguida me jogar lá de cima sabendo que eu nunca aguento o impacto. Eu perguntei se ela sabia o que acabara de me contar e ela me responde que sim, com uma cara de quem na verdade não sabe nem se comeu. O fato é que a gente se meteu numa confusão, eu sei e você sabe também que, você nunca sabe o que diz nem o que quer. O que está acontecendo? – pergunto – Você tá carente? Você não conseguiu pegar o cara que planejava pegar na noitada? Porque se for, pode ir parando. – ela responde com um sentimentalismo barato, diz que sou um idiota e que sou só mais um garoto como os que ela pega nas noites da “vida” – que seja. Na semana seguinte à minha morte, eu a vejo novamente com um vestidinho até os joelhos e uma blusa com uma estampa “floral”, (uma espécie de estampa com flores). Ela me parecia um pouco diferente do normal, não só pela delicadeza que a blusa transmitia, mas pelo penteado que normalmente não é penteado e sim só uma “passada de mão”, como eu costumo chamar. Eu nunca fui uma pessoa boa em puxar conversa, muito menos quando preciso conversar. Nunca fui bom em pedir desculpas e sempre achei que meu orgulho nada mais era que minha falta de jeito com esse tipo de coisa. Tudo bem, eu precisava, não queria perder alguém que por mais cretina que fosse, - às vezes, quase sempre – era meu ponto de paz. – Bem, não sei como dizer isso, acho que eu acabei exagerando no outro dia e queria pedir desculpas. – ela não me olha, sabe que na verdade eu não to muito afim de fazer isso. Pedir desculpa, tem coisa mais complicada? – não, pensei – Sabe, Yasmin, você não pode falar que me ama e em seguida me deixar no silêncio, caramba. Você sabe o poder que tem sobre mim e abusa da minha insegurança comigo mesmo pra falar coisas do tipo. Você pensa que eu não saquei, né, mas eu saquei. Você vem segurando minha mão e depois toca no meu cabelo achando que isso vai me fazer querer que você faça carinho, pois bem, eu não quero. Tá, talvez eu queira… Talvez seja legal segurar tua mão enquanto tu pega no meu cabelo com a outra. Droga, eu não queria me apaixonar, não de novo. A gente já passou por isso antes, não? Você vai me fazer voar e depois cortar minhas asas, é sempre assim. – ela me olha com um sorriso e me pergunta o que eu tenho contra o amor correspondido – bom, esses são os piores, não? É o tipo de amor que te mata e depois te faz viver de verdade."
Marcos Filipe. (via inverbos)
"Eu quero teu colo, Pai. Entrar no meu quarto, fechar a porta, e te contar tudo aquilo que Tu já sabes, tudo aquilo que tem me afogado o peito, a alma. Me derramar, porque tenho certeza que nenhuma palavra iria sair da minha boca, eu não tenho forças pra falar, talvez seja por isso que eu escrevo. Te escrevo como forma de oração, de súplica, de te pedir socorro. Por que viver (aqui) dói tanto, Pai? Por que tudo nos sufoca dessa maneira? Por que nossos sentimentos nos transforma nesse vidro frágil que a qualquer momento pode ser quebrado? Por que há pessoas que nos quebra? Por que há dor? Por que há silêncio? Por que há tanto barulho aqui dentro? Será que Tu me entendes, Pai? Por que eu não, eu não me entendo. Eu me perco tão facilmente, eu caio tão deliberadamente, eu me quebro e sou só pó. Mas Tu me vês, Pai? O que será que Tu enxergas quando olhas pra mim? Eu me pergunto se Tu me aceitas, e tu me dizes que eu já sou Tua. Eu me encontro em Ti, porque eu não consigo me perder quando tu me pegas pelo braço, eu não consigo me reconhecer quando eu te vejo, eu me sinto tão pequena ao Teu lado. Pai, cuida de mim? Tira todo esse medo que anda me afligindo, esses fantasmas que me assombram e que me fazem perder a cor, o foco, a vida. Arranca tudo aquilo que me impede de sorrir, de dançar, de sentir, de viver. Traz tua paz à minha alma. Traz teu amor que me afaga o peito. Traz tua luz que ilumina todo o meu interior, que colore toda a minha vida. Enxuga as minhas lágrimas, Pai, e me faz sorrir novamente."
17 de Janeiro  (via poeflorada)
"Eu estava deitada e ele sentado atrás de mim. Olhou para mim e lentamente foi se inclinando até encostar sua boca na minha. Me beijou. Levantou o rosto sorrindo, chegou bem pertinho do meu ouvido e disse: sua boca é muito gostosa."
Eu amo ele, L. (via fraquejou)
"Ela tinha um sorrisinho tímido que tirava minha tímidez em segundos."
Talita Milani. (via demografar)